CIDADÃO DO ANO
Madrugada ainda, cidade silenciosa. O jornalista sai depois de uma noite de insônia caminhando pelas ruas em busca de inspiração. A tarefa que lhe fora conferida pelo editor chefe vinha lhe tirando o sono e a paz de espirito.
Um olho invisível e atento observava o movimento, como se assistisse um filme em ritmo lento de um único protagonista. Os pensamentos do nosso herói apareciam para o observador como legendas logo abaixo das imagens.
Até a trilha sonora, formada pelos ruídos na noite, contribuíam para compor um cenário mágico e de muda emoção. As luzes da cidade tremulando completavam aquele quadro de raro magnetismo e mistério. A tarefa do jornalista? Escrever um artigo que fosse ponto largada da campanha "cidadão do ano". " Quem merece este título?" Se perguntavam mentalmente o repórter.
O olho do "Espírito da Democracia" viu quando a legenda apareceu e desapareceu, e sorriu irônica e tristemente quando o nosso herói pegou o maço, tirou o último cigarro e o arremessou como uma bola para o meio da praça.
"Qual o perfil do cidadão do Ano? Se perguntava novamente o repórter. Distraído não viu o buraco no meio da rua e seu sapato submergiu na lama.
PQP......A cidade está toda esburacada. ALGUÉM tem que fazer alguma coisa! Quem sabe o prefeito não possa ganhar o titulo de "cidadão do ano"? Afinal ele não está inaugurando tantas obras? Não está gastando os tubos em propaganda na TV, nos Rádios e nos Jornais?
O Espirito da Democracia sorriu mais uma vez resignado (ou cansado?). "Este asfalto está uma capa só. Qualquer chuva provoca panelas. Quem sabe o titulo não deva ir para o dono da empreiteira "tapa buracos"?
O Espirito da Democracia continuava a sorrir um sorriso estranho, como o de quem faz força para não chorar. O nosso herói estava irritado. Pisou na grama e chutou a placa "Proibido Pisar na Grama".
Quem, meu Deus, deve ganhar o raio deste título? Talvez, quem sabe, o presidente da câmara, negociante esperto, competente, ou então algum outro vereador que consegue garantir o seu salário e as comissões por fora?
O Espirito da Democracia estava impassível, não mais sorria. O repórter passava agora pelo centro da cidade, onde mendigos e desempregados perambulavam já cedo à caça do que comer. "A coisa está impossível" (pensou), ALGUÉM tem que dar um jeito neste povo. Não se pode mais andar tranqüilo pelas ruas da cidade.
- Cai fora vagabundo(enxotou um pedinte).
Talvez o título de cidadão do ano possa ir para um destes juízes que se apegam com força às provas dos autos e não conseguem ver um milímetro da realidade à sua volta, ou então para aqueles que se escondem no tapume protetor da burocracia e depois saem para pescar. Ou Então para estes advogados que acham que não tem que saber a procedência do dinheiro dos seus clientes e agem na caradura como receptadores. Pode ser também um destes promotores que preferem garantir seus cargos e sua comodidade ao invés de denunciar governantes corruptos.
O Espirito da Democracia estava deprimido, mas tentava disfarçar. Outros bons candidatos são também estes delegados e policiais que negociam com bandidos e exploram o turismo sexual infantil, ou mesmo aqueles secretários que vestem a camisa de prefeitos desonestos com o argumento de respeito à hierarquia.
Caberia também ai os secretários "vacas de presépio" que aceitam passivamente qualquer ordem do chefe. Outros bons candidatos seriam também os donos de veículos de comunicação que torcem à vontade suas opiniões de acordo com quem paga mais.
Poderia ser também algum eleitor que troca seu voto por vantagens pessoais, perpetuando, ano após ano, esta política viciada que corrói o Espirito da Democracia (ele não se conteve e chorou copiosamente).
O nosso herói passava agora pelo posto de saúde e ironiza com os miseráveis que lotam sua entrada esperando atendimento. "Êta povinho morto de fome". E aproveita que a rua está vazia e começa a brincar lançando com chutes certeiros, latas e garrafa no meio da lagoa.
Bem que este titulo de cidadão do ano podia ir para mim mesmo. Vou começar o meu texto por esta tese. Se alguém tem que ganhar, POR QUE NÃO EU? O Espirito da Democracia não agüentou mais a continuar assistindo aquele filme macabro e gritou para os céus: "Não agüento mais, mandem outro cara".
