2.11.05

CIDADÃO DO ANO

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Madrugada ainda, cidade silenciosa. O jornalista sai depois de uma noite de insônia caminhando pelas ruas em busca de inspiração. A tarefa que lhe fora conferida pelo editor chefe vinha lhe tirando o sono e a paz de espirito.
Um olho invisível e atento observava o movimento, como se assistisse um filme em ritmo lento de um único protagonista. Os pensamentos do nosso herói apareciam para o observador como legendas logo abaixo das imagens.
Até a trilha sonora, formada pelos ruídos na noite, contribuíam para compor um cenário mágico e de muda emoção. As luzes da cidade tremulando completavam aquele quadro de raro magnetismo e mistério. A tarefa do jornalista? Escrever um artigo que fosse ponto largada da campanha "cidadão do ano". " Quem merece este título?" Se perguntavam mentalmente o repórter.
O olho do "Espírito da Democracia" viu quando a legenda apareceu e desapareceu, e sorriu irônica e tristemente quando o nosso herói pegou o maço, tirou o último cigarro e o arremessou como uma bola para o meio da praça.
"Qual o perfil do cidadão do Ano? Se perguntava novamente o repórter. Distraído não viu o buraco no meio da rua e seu sapato submergiu na lama.
PQP......A cidade está toda esburacada. ALGUÉM tem que fazer alguma coisa! Quem sabe o prefeito não possa ganhar o titulo de "cidadão do ano"? Afinal ele não está inaugurando tantas obras? Não está gastando os tubos em propaganda na TV, nos Rádios e nos Jornais?
O Espirito da Democracia sorriu mais uma vez resignado (ou cansado?). "Este asfalto está uma capa só. Qualquer chuva provoca panelas. Quem sabe o titulo não deva ir para o dono da empreiteira "tapa buracos"?
O Espirito da Democracia continuava a sorrir um sorriso estranho, como o de quem faz força para não chorar. O nosso herói estava irritado. Pisou na grama e chutou a placa "Proibido Pisar na Grama".
Quem, meu Deus, deve ganhar o raio deste título? Talvez, quem sabe, o presidente da câmara, negociante esperto, competente, ou então algum outro vereador que consegue garantir o seu salário e as comissões por fora?
O Espirito da Democracia estava impassível, não mais sorria. O repórter passava agora pelo centro da cidade, onde mendigos e desempregados perambulavam já cedo à caça do que comer. "A coisa está impossível" (pensou), ALGUÉM tem que dar um jeito neste povo. Não se pode mais andar tranqüilo pelas ruas da cidade.
- Cai fora vagabundo(enxotou um pedinte).
Talvez o título de cidadão do ano possa ir para um destes juízes que se apegam com força às provas dos autos e não conseguem ver um milímetro da realidade à sua volta, ou então para aqueles que se escondem no tapume protetor da burocracia e depois saem para pescar. Ou Então para estes advogados que acham que não tem que saber a procedência do dinheiro dos seus clientes e agem na caradura como receptadores. Pode ser também um destes promotores que preferem garantir seus cargos e sua comodidade ao invés de denunciar governantes corruptos.
O Espirito da Democracia estava deprimido, mas tentava disfarçar. Outros bons candidatos são também estes delegados e policiais que negociam com bandidos e exploram o turismo sexual infantil, ou mesmo aqueles secretários que vestem a camisa de prefeitos desonestos com o argumento de respeito à hierarquia.
Caberia também ai os secretários "vacas de presépio" que aceitam passivamente qualquer ordem do chefe. Outros bons candidatos seriam também os donos de veículos de comunicação que torcem à vontade suas opiniões de acordo com quem paga mais.
Poderia ser também algum eleitor que troca seu voto por vantagens pessoais, perpetuando, ano após ano, esta política viciada que corrói o Espirito da Democracia (ele não se conteve e chorou copiosamente).
O nosso herói passava agora pelo posto de saúde e ironiza com os miseráveis que lotam sua entrada esperando atendimento. "Êta povinho morto de fome". E aproveita que a rua está vazia e começa a brincar lançando com chutes certeiros, latas e garrafa no meio da lagoa.
Bem que este titulo de cidadão do ano podia ir para mim mesmo. Vou começar o meu texto por esta tese. Se alguém tem que ganhar, POR QUE NÃO EU? O Espirito da Democracia não agüentou mais a continuar assistindo aquele filme macabro e gritou para os céus: "Não agüento mais, mandem outro cara".

17.10.05

SUPREMO TRIBUNAL DA CONSCIÊNCIA

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"Está aberta a sessão deste tribunal". A voz do serventuário da justiça ecoou forte quebrando o silêncio da sala do júri.
O meritíssimo juiz emendou logo a seguir: "Que o réu se levante para ouvir a sentença".
Um sujeito de terno e gravata do meu lado me cutucou e disse em voz baixa: "Levante-se João. Não ouviu o Juiz?"
Levantei-me num impulso, meio atordoado, como saído de um sono profundo.
O juiz prosseguiu. "O réu foi considerado culpado de todas as acusações e deve levar pena máxima prevista pela lei".
"Como culpado? . De que estou sendo acusado? ". Falei mais para mim, ainda envolto em surpresa.
"Senhor advogado de defesa ( disse o juiz) .Queira me fazer a gentileza de refrescar a memória de seu cliente que parece estar acometido de súbito e conveniente surto amnésico".
O sujeito de terno e gravata ao meu lado me puxou pela manga da camisa e me disse em tom irritado: "Sr João Batista, se continuar com esta atitude vai complicar muito sua situação".
"Mas é verdade. Não sei o que está se passando. Que tribunal é este? . De que sou acusado? Pelo amor de Deus me ajude".
O advogado de defesa parece ter sentido sinceridade na minha fala. Chamou o advogado de acusação e ambos se aproximaram do meritíssimo Sr Juiz e confabularam por um breve tempo. Ouvi quando disse:
"Sr Juiz tenho razões para crer que algo de grave se passa com meu cliente, sugiro um breve recesso para tomarmos pé da situação".
"Se o advogado de acusação não se opor ......" .Começou o Juiz. "Nada contra, meritíssimo, visto a gravidade da acusação e da natureza deste tribunal temos que deixar prevalecer o amplo direto de defesa".
O Juiz enunciou com voz solene. "Este tribunal entra em recesso por duas horas".
Numa saleta ao lado da sala do tribunal, meu advogado de defesa foi logo ao ponto. "O que está pegando, João, vai fraquejar logo agora? "
"Não é nada disso, me explique esta história toda deste o inicio". "O.k. ( começou meu advogado pacientemente), Durante todos estes anos você vem acusando a justiça de morosa, burocrática e até corrupta às vezes, se lembra? "
"Claro, é isto mesmo que acredito e venho combatendo"
"Pois então, a sua propositura de uma justiça rápida e sumária foi aceita e é isto que está em julgamento. Você está tendo a oportunidade de defender sua posição para a criação STC - RS, que é o Supremo Tribunal da Consciência de Rito Sumário. Você está tendo a honra de ser o primeiro réu do novo sistema e a oportunidade de provar que sua tese é viável".
"Mas logo eu tenho que ser o primeiro réu? Qual a acusação que pesa sobre mim? "
"Há de convir que alguém tem que ser o primeiro e nada mais justo que quem teve uma idéia tão luminosa tenha tambem o direito de coloca-la à prova. "Quanto às acusações você vai ter que ouvi-las no tribunal. Segundo esta nova proposta todo homem é culpado até que possa provar sua inocência, mas vamos que o recesso terminou."
O Juiz pediu ao seu auxiliar que lesse as acusações que pesavam sobre mim, e fiquei impressionado com o comprimento da lista, lembrando antes que minha própria memória seria minha testemunha de defesa e acusação quando fosse projetado pelo Psicoprojetor sobre a tela gigante que ficava ao fundo da sala.
"O réu é acusado e fazer acusações insistentes e sem provas contra a justiça do homens".
"O réu é acusado de declarar como culpados, homens corruptos, antes que a justiça dos homens tenha transitado em julgado"
"O réu é acusado de não ter puxado saco de ninguém e de não ter se aproveitado das oportunidades de se beneficiar pessoalmente, quando elas passaram como um cavalo arriado à sua frente"
"O réu é acusado de silenciar muitas vezes quando atos indevidos, degradantes e quando ações de corrupção ativa e passiva lhe chegavam de forma privilegiada aos ouvidos".
Enquanto o orador lia as acusações as imagens da minha memória, projetadas no telão gigante não me deixavam mentir. Lá estava tudo detalhado e gravado para posteriores recursos e para registro da Consciência Coletiva com vista ao Julgamento Derradeiro.
Após a leitura das provas dos autos o Juiz perguntou em alto e bom tom: "O réu se declara culpado ao inocente das acusações? Lembre-se que sua declaração vai ser considerada a sentença definitiva deste tribunal e que está em jogo a propositura principal para a criação deste tribunal especial"
"Eu me declaro culpado de todas a acusações, meritíssimo, e peço a pena máxima"
"De acordo com as provas dos autos e como manda minha consciência declaro o réu ,João Batista, culpado de todas as acusações que pesam sobre ele e determino como penalidade e como manda lei que ele seja condenado a vagar por entre linhas e papeis e dedicar sua vida a provar sua inocência. Tenho dito e cumpra-se."

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SORTE PROGRAMADA

Consta que um sujeito vivia a atormentar ao bom Deus, apoiando-se na promessa do "pedi e recebereis".
"Meu Deus fazei com que eu ganhe na loteria". Deus, cansado daquele aluguel gratuito do seu Divino ouvido, apareceu-lhe em sonho de disse: "Tudo bem, meu filho, mas pelo menos compre um bilhete".
Esta é uma historia simples e talvez até boba mas que pode servir de gancho para uma reflexão sobre a sorte. Podemos começar esta reflexão com uma pergunta : Existe sorte ou azar?.
Sorte como se acredita normalmente seria algum evento positivo, obra do acaso, ao qual não se teria nenhum controle ou possibilidade de intervenção de nossa parte. Da mesma forma o azar seria sua contrapartida negativa que deixaria o indivíduo à mercê dos acontecimentos e totalmente indefeso aos caprichos do acaso.
Muitos pensadores acreditam que este conceito de sorte ou azar não reflete fielmente a realidade dos fenômenos em questão. Segundo eles a sorte seria a resposta visível de uma parceria implícita entre o microcosmo, representado pela mente humana e o macrocosmo ou o Universo com suas sutis, dinâmicas e variadas formas de energia. Ou seja a atitude positiva do indivíduo representaria o primeiro passo desta parceria , seria como a compra do bilhete. Em resposta as forças universais executariam o segundo passo, no caso promovendo o evento que chamamos sorte.
Isto explicaria em parte a existência dos "sortudos" e dos "azarentos", pessoas dotadas a partir de sua percepção da realidade de recursos qualificados ou desqualificados que às tornariam predispostas à eventos positivos ou negativos.
Alguém poderia pensar que neste caso ter sorte é fácil, é só pensar positivamente. Na pratica não é tão simples assim porque o pensar positivo tem que partir de um plano mais profundo da nossa natureza. Não é possível se enganar ao Universo assim como não se pode lubridiar à Deus. A atitude e o pensamento positivo tem que estar incorporados à nossa natureza tornando-se parte dela. A atitude positiva artificial não é capaz de compor estas parceria com o Universo e gerar os eventos de sorte embora não deixe de ser um começo aceitável . A idéia de "crer para ver" pressupõe que embora não conheçamos ainda o caminho da mina estamos a confiar em que o conhece.
O trabalho duro por si não gera resultados que poderíamos chamar de sorte. Ele deve estar apoiado por energias qualificadas pela nossa mente superior que tenham a freqüência e magnitude necessárias para vibrar com a energia Universal .
A "fé que remove montanhas" estaria dentro deste conceito tão difundido pela cultura cristã mas pouco compreendido e aceito como um instrumento à disposição do Homem em sua dura caminhada sobre a Terra à procura do "Jardim do Éden".
Podemos afirmar, à partir destas reflexões, que a sorte pode ser construída dentro de um projeto de vida que considere e lance de mão de regras implícitas que regulam a relação entre o Homem e o Universo.
A falta desta conexão entre o ser e seu plano espiritual gera um tipo trapaceiro que procura resultados a qualquer preço, desrespeitando estas referidas regras e gerando a sua volta um deserto de azar.
A lei é simples, a sorte é para quem fez por merecer, e este merecimento é determinado pelo Universo que é uma outra forma de se referir à Deus. O mesmo Deus onipotente, onisciente e onipresente capaz de enxergar nossas mais profundas intenções e fazer o julgamento exato de nossos merecimentos. Estes mesmo Deus que temos tido a pretensão de questionar e tentar lubridiar em nossa humanas trapaças.

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O MENSAGEIRO DO AMANHÃ

A pequena aldeia de Virnna, localizada aos pés dos Alpes Suíços, teve sua rotina quebrada com a chegada do estranho viajante. Aparecera no meio da noite, durante a tempestade de neve e se alojara na única hospedaria e taberna da região.
Os habitantes de Virnna, sectários por natureza, olhavam com desconfiança a chegada de qualquer estranho.
Vivendo exclusivamente da venda de carne e couro de alces, eles se sentiam ameaçados com a chegada de forasteiros que na certa, como nas outras vezes, eram portadores de maus presságios e traziam encrencas a tiracolo.
Para corroborar esta tese, há muito tempo que não se via uma tempestade como aquela na região. De pouca fala, uma enorme capa preta com capuz que lhe dava uma aparência sinistra, o que intrigava mesmo era aquele pequeno baú do qual não se desgrudava desde que chegara à aldeia na noite passada.
Todos na taberna se calaram quando o estranho apontou no alto da escada que dava acesso aos alojamentos na parte de cima do prédio. Passos firmes e cadenciados descia em direção ao salão da taberna, o taco da bota ressonando contra o piso de madeira.
Ouviram quando perguntou ao taberneiro se ele tinha um cofre onde pudesse deixar o pequeno baú, enquanto dava um passeio pelos arredores. Um lobo solitário uivava perto dali e um calafrio coletivo cortou o ambiente.
Passear àquela hora? Onde já se viu isto?
O taberneiro achou por bem alertar o forasteiro, afinal era seu cliente e esperava receber dele pela hospedagem e comida.
- O senhor não deveria sair com este tempo, a tempestade está muito forte e há lobos nas redondezas.....
Calou-se subitamente, o sangue lhe gelando nas veias, quando o viajante, apenas com o olhar parecia dizer-lhe: "Vá cuidar da sua vida".
Pegou o baú, colocou-o no cofre e ficou deveras preocupado, quando o estranho disse, após deixar um maço de notas sobre o balcão: - Proteja o baú com sua vida.
O homem de preto saiu sumindo no meio da tempestade de neve que caía sem tréguas em toda a região. Levou algum tempo para que alguém se atrevesse a fazer algum comentário.
- Que sujeito esquisito, o cara me dá arrepios.
Outro se arriscou: - O que haverá no baú?
-Eu não quero nem saber, ( disse o taberneiro).
- Você tem que saber, o sujeito mandou que o protegesse com a vida.
- Não prometi nada.
- Mas se calou e quem cala consente.
Aquela noite se arrastou lenta e angustiante, ninguém queria arredar os pés da taberna. Fora o barulho de copos e garrafas, o silêncio era denso, sepulcral. Quase se podia parti-lo com uma faca.
Já amanhecia quando um dos caçadores falou:
- O sujeito não volta, na certa foi atacado pelos lobos.
Outro emendou:
- Taberneiro, olhe o que tem dentro do baú, alguem tem que ser avisado.
Um barulho estranho vindo de fora começou a encher o ambiente. Com relutância o taberneiro foi até o cofre, tirou o baú do forasteiro e o abriu. O barulho lá fora era ensurdecedor.
O taberneiro olhava estático para dentro do baú e sua atenção se voltou subitamente para a montanha.
- Pelo amor de Deus, o que tem aí? , ( um caçador se manifestava).
O taberneiro levantou um recorte de um jornal de dentro do baú para que todos pudessem ler:
"A ALDEIA DE VIRNNA FOI SEPULTADA ONTEM EM MEIO À TEMPESTADE DO SÉCULO".
- Isto é alguma brincadeira?
Com expressão de horror o taberneiro apontava a data do jornal, olhos fixos na direção da montanha que rugia.
O jornal datava o dia de amanhã.

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A ÚLTIMA GREVE

Zé Brás é, como ele próprio se apresenta, é um profissional autônomo da economia informal. Mora e trabalha numa cidade qualquer como muitas deste Brasil continental. Voltava para casa depois de um dia cansativo de trabalho.
Dia difícil por sinal. A clientela sumindo, o serviço escasseando, seu faturamento minguando de forma a comprometer até os suprimentos básicos de sua família. Vinha pela rua pensativo, chutando latas e tampinhas, imaginando o que ia dizer a sua mulher e filhos por chegar em casa mais uma vez sem garantir a refeição do dia.
Se achava o máximo da incompetência, onde já se viu ? , não conseguir garantir o mínimo de dignidade para seus entes queridos. Com a água cortada e a luz na iminência, não via nenhuma perspectiva de mudar este quadro dramático a curto prazo.
Pedir ajuda a seus familiares nem pensar. Cada um estava pior do que o outro e por outro lado ele sabia como era humilhante ser ajudado e depois se sujeitar a aqueles sermões todos. O negocio era ir resistindo, trabalhando e confiando na Divina Providência.
Estava tão distraído que não viu de imediato a aproximação furtiva de três vultos na rua escura e deserta.
"E aí meu camarada, tu estás sendo assaltado, passa para cá o pedágio". Viu os bandidos lhe tirarem a carteira vazia, jogarem seus documentos na lama, e se sentiu um excremento de cachorro quando constataram que não havia um único real disponível.
"Tu vai apanhar, seu safado, para aprender a não andar sem o pedágio’ .
Surraram o coitado até à exaustão, tiraram sua bota e o casaco e o deixaram estirado, desacordado. Horas depois o Zé levantou-se com dificuldades e se encaminhou para o pronto socorro mais próximo.
Tumulto na entrada, fila quilométrica, fichas contadas e limitadas, o nosso herói já se sentia um pouco melhor e resolveu ir até delegacia dar a queixa do assalto. De qualquer maneira ele não ia conseguir ser atendido naquele dia mesmo.
Foi informado na delegacia que deveria voltar depois para fazer a ocorrência porque todos os detetives estavam de Campanhã naquela hora. Quando ele saia, um velho faxineiro disse irônico: "É verdade, estão todos de Campanhã na zona boêmia administrando as drogas e a prostituição".
Achou melhor ir para casa tomar um banho e dormir. No dia seguinte veria o que fazer. Levantou-se bem cedo, saiu para ver se captava algum serviço. Conseguiu fazer alguns biscates e se sentiu mais animando. voltava para casa com algum no bolso, ia dar para passar na mercearia e garantir o rango do dia para a família. Encontrou três velhos conhecidos no caminho.
"E aí mané garantiu o nosso hoje, ou vai querer apanhar de novo? ". "Olha aí a mixaria que o safado trouxe para a gente. Pau nele cambada". Mais uma surra e mais uma ida ao pronto socorro.
Havia lá uma faixa, "Estamos em Greve". Voltou à delegacia que aquele dia estava fechada com uma faixa na entrada: "Greve por melhores condições e salários". Mais revoltado do que nunca o Zé foi para o Fórum. Quem sabe ali ele poderia se fazer ouvir, afinal era ele mesmo quem pagava, apesar das dificuldades, o pronto socorro, a delegacia e até a Justiça. Foi informado logo na entrada que a Justiça estava em greve contra as reformas da Previdência e pela manutenção de seus direitos. "Puxa vida, só os bandidos não fazem greve".
O Zé foi até o pintor de faixas, um velho conhecido e encomendou uma faixa, de cinco metros, para pagar depois. Os jornais sensacionalistas acusaram no dia seguinte, que um sujeito maluco qualquer fora encontrado dependurado num viaduto, enforcado em uma faixa com os dizeres: "ESTOU DE GREVE".
Na foto vista de longe, tinha-se a impressão que aquela face lívida e distorcida , sustentava após a morte um sorriso irônico. O Zé finalmente ria por ultimo e zombava de seus carrascos e detratores.

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QUESTÕES DE FE

Quando ainda adolescente ouvi de certa feita de um primo uma tese interessante. Dizia ele que , com base em um agudo senso de observação, estava tentado a crer que Deus seria na verdade uma invenção dos pais para que seus respectivos filhos andassem na linha.
Me ocorreu, naquele momento, que eu mesmo já tivera impressão parecida. Na verdade esta era apenas uma das muitas questões que vinham bombardeando as bases de uma frágil fé induzida pela propaganda maciça e tirânica da Santa Madre de Roma.
Todas estas duvidas da fé apareciam na nossa consciência periférica nos raros momentos que nosso auto policiamento cedia lugar a arriscados arroubos de duvidas.
Duvidar dos dogmas religiosos e das regras formais , cantadas em ladainhas durante os cultos, eqüivalia a se sujeitar ao julgamento implacável de um deus ao mesmo tempo omisso e opressor.
O que muito me intrigava era a enorme distância entre a pregação que ouvíamos sobre o certo e errado e pratica quotidiana que apontava em direção oposta.
Diziam os " experientes" : - Você é jovem , vai aprender ainda.
E esta foi uma lição das mais dolorosas , mas aprendi realmente. Antes disso no entanto me vi lançado em um espaço vazio de duvidas e mais duvidas. Lá naquela zona fantasma minha consciência vagavam a ermo se perguntando porque as mesmas pessoas que se postavam constritas em frente ao altar no culto domingueiro ,se davam ao desfrute de , durante o resto da semana , agir com se o Bom Deus tivesse , ao findar a cerimonia religiosa desligado seu circuito interno de TV e fechado as vistas à dura corrida semanal pela sobrevivência do mais apto, com suas regras de vale tudo, para depois na volta do domingo retornarem ã sua constrição e a sua fé formalizada?
"Errar é humano", diriam alguns . Para outros não haveria nenhum problema em se cometer ilícitos, porque afinal Deus é só perdão.
Uma da respostas pessoais que mais aplacavam as minhas angustias era que este escriba era doido e portanto qualquer questionamento desmerecedor de créditos.
Um dia , amparado por este atestado de doido resolvi me perguntar , afinal o que é fé verdadeira? Não aquela coisa induzida, forçada, que nos impõe viseiras na consciência e nos impede de questionar dogmas e regras religiosas leoninas.
Estou me referindo à fé que cura e que remove montanhas. Estas fé verdadeira existe e funciona?
Pode parecer um absurdo se lançar tal indagação num país de cultura Cristã ou a maior nação católica do mundo. Esta pergunta é pertinente porque se de um lado nos vangloriamos de nossa inabalável fé cristã de outro nos apegamos com tal vigor às nossas conquistas materiais, numa ação que contradiz o discurso de fé e de crença em um Deus de providência.
É como se mantivéssemos um pé na fé e o outro, por via das duvidas, em nossas limitadas capacidades humanas. Talvez, quem sabe, se Deus nos falhar, precisemos nos garantir sozinhos.
Alguém lembrará que Deus nos deixou as palavras : Faça a sua parte que farei a Minha.
Tudo bem, mas eu ousei perguntar à Deus : Mas qual seria a nossa parte?
Seu vozeirão não se fez presente por entre nuvens e trovões, mas aquela vozinha interna me dizia : " Sua parte é apenas ter fé e trabalhar que o resto é Comigo".
E eu tive a petulância de crer que aquela voz que me soprava suavemente era a voz daquele Deus que nos chamou de filhos, e nos mandou Seu próprio Filho para nos salvar.
E percebi naquele momento algo mais , que estava definitivamente curado daquela sensação de vazio que me angustiara um dia em plena juventude. Me sentia definitivamente livre daquele falso deus que nos mantinha sob a ameaça do fogo eterno e um Deus Verdadeiro guiava minhas mãos naquele momento, no teclado do computador.

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DEVEDORES ANÔNIMOS

Meu primo Custódio passou por mim tão afoito e preocupado que tive que segura-lo pela manga do paletó para que ele me visse.
"Que pressa é esta primo, vai tirar o pai da forca?
"Muito pior João, estou indo me preparar para encarar minha própria forca. Não posso parar agora que já está na hora de começar minha reunião".
"Que reunião é esta?" perguntei curioso.
"Me acompanha que no caminho eu explico" Me disse o primo sem diminuir sua marcha.
Custodio me perguntou se eu já ouvira falar do D A. Segundo ele esta era a sigla dos Devedores Anônimos, grupo de auto ajuda do qual ele era um dos coordenadores.
"Nunca ouvi falar, posso ir lá com você para conhecer? "
"Pode não, deve". Me respondeu o primo satisfeito pelo meu interesse.
Eu nunca podia imaginar que o primo estivesse tão mau das pernas, devendo tanto a ponto de ter que se associar a um grupo desta natureza, e disse isto ao Custódio.
"Eu também fiquei sabendo a pouco tempo, mas não se iluda primo, você também é um serio candidato ao nosso grupo", me disse ele.
"Engano seu primo, minhas contas estão rigorosamente em dia"
"Você deve muito mais do que pensa ,João e hoje vou te provar isto."
O primo me perguntou se eu sabia qual era o valor da divida externa brasileira.
"Algo em torno de setecentos bilhões de dólares, penso eu".
"Exato, e o Brasil tem quantos milhões de habitantes?"
"Aproximadamente cento e sessenta milhões".
"Se você dividir os setecentos bilhões de dólares pelas cento e sessenta milhões de pessoas vai encontrar a cifra de Quatro mil e quinhentos dólares, o que ao cambio atual representa quase quinze mil reais"
"Sim, e daí?". Eu lhe disse sem entender onde o primo queria chegar.
"Daí que cada brasileiro, incluindo você e eu estamos devendo quase quinze mil reais ao FMI, sem prejuízo de qualquer outra divida. Ou seja nós nascemos carecas, sem dentes, pelados e já com uma divida original daquele tamanho, é ou não é para desanimar? "
Vendo por aquele lado a coisa fazia algum sentido, mas eu lhe disse que esta divida ninguém ia pagar.
Mais uma vez ele se espantou com minha santa ignorância.
"Você está por fora primo, está se vendo que precisa se associar urgente aos Devedores Anônimos. Esta é uma doença genética, incurável e progressiva. Quando você recebe a carteirinha de desempregado ou de trabalhador informal está pagando a tal divida, quando é assaltado ali na esquina a está pagando de novo, o mesmo acontece quando abastece o carro no posto, quando procura pela saúde publica e não acha, quando precisa colocar seu filho na escola e não consegue. Quando compra feijão, arroz, carne, leite, pão a divida está ali embutida como um tempero indigesto. Esta é a nossa herança maldita, fruto da incompetência e desonestidade de sucessivos desgovernos".
Estava impressionado com os conhecimentos exibidos pelo primo e plenamente convencido de a única saída que nos sobrava depois de termos nascido brasileiros era nos associarmos aos Devedores Anônimos para aprendermos a conviver com esta praga que cresce a cada dia e nos torna reféns desta doença incurável. Mas de qualquer forma, antes ser um Devedor Anônimo do que um Credor Conhecido e queimar no fogo dos infernos, que com certeza é o destino certo dos exploradores da miséria alheia. O pior é que depois ainda dão uma de caridosos, mas Deus está vendo.

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A CRATERA

Uma noite destas uma enorme cratera se abriu nos fundos do meu quintal. Foi a Ana quem ouviu primeiro, no meio da madrugada, um estranho barulho de terra sendo sugada. Me acordou assustada: "João, que barulho foi este? ".
Levantei-me sonolento, abri a porta da cozinha já imaginando uma resposta: "Alguma coisa caiu por causa do vento".
Dei alguns passos no quintal escuro esfregando os olhos e tentando vislumbrar alguma coisa. De repente o chão me faltou e me vi rolando na terra molhada e sendo puxado para o interior do desconhecido, além do buraco negro
Ainda ouvi a Ana gritava desesperada pelo meu nome e dizia alguma coisa qualquer quanto eu ter esquecido de escovar os dentes ou tomar café.
No escorregador enlameado eu viajava e vi toda minha vida passar num relance. O pavor inicial da queda livre foi cedendo quando percebi que estava inteiro e que viajava agora por um túnel bem delineado e liso como que feito por alguma escavadeira rotativa.
Aquela corrida deve ter levado horas e acho que acabei adormecendo. Era estranha a sensação de se escorregar indefinidamente por um tobogã gigante em direção ao centro da terra.
Tive tempo de avaliar minha vida em mínimos detalhes e cheguei a pensar que havia morrido e quem sabe eu não ia agora ao encontro do meu julgamento final? .
Um murmurinho e uma luz avermelhada me tiraram dos devaneios, aquela viajem parecia estar chegando ao fim. Minha memória estava confusa e me perguntava quando eu havia colocado aquele traje de gala, quando tinha certeza que saíra da cama e caíra no buraco ainda de pijama? Nunca vira antes aquele fraque e cartola e aquelas polainas que pareciam feitas para mim sob medida.
Sai do túnel e cai de pé num imenso salão, sendo amparado por um elegante mordomo em trajes de gala todo vermelho.: "Seja bem vindo senhor, chegou bem na hora". Ouvi enquanto me recompunha da inusitada viajem. "Que lugar é este? ", perguntei enquanto caminhava em direção a uma concentração de convidados.
"Você é um convidado especial do setor de imprensa da "Baile dos Malditos" , fique à vontade, participe da festa e depois relate tudo aquilo que ver e ouvir", me disse o mordomo.
O salão era de uma suntuosidade que eu nunca vira, com tapetes persas, cobrindo toda sua extensão, mobiliário antigo, candelabros dourados, um ambiente digno da realeza.
A orquestra tocava uma musica lenta e os comensais eram atendidos por serviçais solícitos e impecáveis, quando o mestre de cerimonias anunciou no centro do salão que a homenagens iam começar.
Os homenageados foram sendo chamados e recebiam uma medalha e um diploma. Pude reconhecer alguns deles com o ex-senador Jader Barbalho, O ex-senador ACM, ex-juiz Nicolau. Um grupos de banqueiros aplaudiam freneticamente, Cacciola comandando a claque. Alguém comentou que os anões que davam apoio ao mestre de cerimonias segurando os diplomas e as medalhas eram os anões do orçamento. Um sujeito gordinho e suarento me puxou pela manga e me disse: "Você que é de Sete Lagoas tem um conterrâneo ali entre os homenageados menos ilustres, um ex-prefeito de sua cidade".
Aproveitei o comentário e perguntei pelo presidente Fernando Henrique. O sujeito me disse que ele iria ser homenageado no próximo evento, teria primeiro que terminar o seu mandato e tinha o direito de tentar se salvar fazendo um fim de governo em beneficio do povo, mas isto era mera formalidade porque o presidente não mudaria nesta encarnação.
Perguntei o que vinha depois da homenagem e ele me disse que quanto eu saísse de volta à superfície eu teria esta resposta.
Fim de festa, convidados se retirando, vi uma placa dizendo; "SAÍDA DO INFERNO", para onde me dirigi. Ao lado havia um aviso: CORREDOR DOS HOMENAGEADOS, dei uma rápida olhada pela fresta da porta .
Só havia ali um descomunal caldeirão sobre uma gigantesca fogueira onde se cozinhava alguma sopa de carne podre e pedaços de pano. E aquela turma toda caminhava despreocupada e sorridente exibindo seus diplomas e sua reluzentes medalha, sem saber o que os esperava do outro lado. E não ia ser eu quem iria avisa-los.
Acordei em casa com o sol já alto. Levantei ainda apavorado pensando no buraco. "Mas que buraco, você estava sonhando", me disse a Ana.
Corri para o quintal e realmente não havia nada ali. cheguei mais perto e bem que vi que a terra estava toda revolvida. Pelo bem ou pelo mal achei melhor me conceder o beneficio da dúvida.

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CONTATOS IMEDIATOS

Naquela noite sentei-me em frente ao computador para escrever mais uma crônica como tenho feito neste últimos anos. Uma falta de assunto me pegou e me deixou paralisado por longos minutos em frente a tela branca do monitor.
Fiquei ali olhando para aquela imagem do descanso de telas que simula uma viagem pelo espaço sideral, com aquele monte de estrelas vindo sem parar em minha direção.
Não sei precisar quanto tempo fiquei ali de bobeira olhando para aquela imagem e apesar do peso das minhas pálpebras e do sono que já era irresistível, me mantinha firme no comando da nave.
Pensando bem uma viagem pelo espaço é um saco, você fica ali por horas navegando por entre os astros por milhares e milhares de anos luz e nada de novo acontece.
O radio tocava atrás de mim "as mais tocadas da semana" e por uma breve instante pensei ter ouvido no meio de uma daquela musicas uma voz me chamando. "Deve ter sido impressão minha ou resultado de algum breve cochilo". Mais alguns minutos e a voz repetiu : "Hei cara, está surdo? Acorda. É com você mesmo que estou falando". "Comigo?" . perguntei sem pensar muito.
"É contigo mesmo terráqueo, vocês parecem retardados, se liga cara".
Terráqueo? este locutor é abusado e atrevido. Onde já se viu? Dar uma de ET e ainda por cima me chamar de retardado. Mas que negocio é este? devo estar ficando lelé, batendo papo com um radio.
"Vai ficar a noite inteira aí pensando ou vai se comunicar comigo ?. A voz continuou". Preferi ficar calado e fingir que não era comigo.
"Ô terráqueo, você não tem educação não? Estou tendo um trabalhão para me comunicar contigo e você me faz esta desfeita".
Resolvi arriscar. "Quem está falando afinal? ". "Tudo bem, deixa eu me apresentar, meu nome é Zkxwhhnmprtq e sou do planeta Phescoson, que fica na Galáxia de Alfa Centauro". "Supondo que esteja dizendo a verdade primeira pergunta: como estás falando a minha língua? Segunda pergunta: como se pronuncia seu nome em meu idioma? " O.k. a primeira é muito simples , estou usando um decodificado lingüistico universal, quanto à segunda como não há equivalência de meu nome na sua língua pode me chamar de Zé".
"Só Zé? , escolheu um nome bem chinfrim para um ET".
"Vamos parar de complicar as coisas, eu estou a milhões de anos luz da terra e precisamos trocar informações mais relevantes. Não podemos perder tempo, a vida do seu planeta corre serio perigo".
"Tá bom Zé, como conseguiu falar comigo pelo radio? .
"Estou usando um poderoso transmissor de "ondas mentais", que usa a energia do pensamentos dos interlocutores, mas esta é uma tecnologia muito avançada para vocês terráqueos. Nós, os Phescosonianos, estamos a milhões de anos à sua frente em evolução. Nossos pensamentos estão sendo convertidos em radio freqüência para que possamos nos comunicar".
"O.K. , entendi tudo, mas e o tal perigo de que você estava falando?".
"É o seguinte, o Conselho da Galáxia resolveu fazer uma faxina no setor mais poluído deste quadrante e com o perdão da palavras vocês terráqueos são uns porcalhões, estão provocando um mau cheiro e uma poluição sem precedentes na região. Vai chegar chumbo grosso aí brevemente se vocês não maneirarem."
"Mas a coisa tá ruim assim Zé?" .
"Põe ruim nisto, os terráqueos estão sendo considerados a pior praga que já atacou a galáxia deste a desintegração Fhedozon. Os mestres acreditam que a Terra foi vitimada por detritos provenientes daquele planeta degradado. O mau cheiro que exala daí está incomodando toda a vizinhança num raio de milhões de anos-luz "
"E o que podemos fazer para nos livrarmos da ameaça Zé?". "Não posso mentir para você, pelos seus históricos tudo leva a crer que não haverá outra saída a não ser a desinfeção total, no entanto avisar não ofende, vocês tem direito de uma ampla defesa" .
"Você me animou muito Zé, pelo menos sabemos que vamos ser destruídos por motivos justos, devastação das florestas, poluição dos mananciais, destruição da flora e da fauna, lixo toxico, lixo atômico, lixo hospitalar, crimes hediondos, capitalismo selvagem, má distribuição de rendas, fome, pestes, guerras, campanhas políticas, novelas da Globo, Ratinho, João Cleber, Márcia Goldsmth. Pensando bem estes Phescosonianos estão mais do que certos e até demorando a aplicar sua faxina nesta porcaria em que a raça humana vem transformando o planeta Terra.

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UMA VIAGEM ALUCINANTE

Passado o vendaval lanço um olhar para trás, tentando descobrir onde tudo começou. Tenho dificuldades de visualizar a entrada do terreno movediço pôr onde me enveredei pôr todos aqueles anos até dar de cara com terra firme.
Creio que vou precisar recorrer ao tempo/espaço continuo de Einstein para descrever esta viagem tumultuada e insólita através de um Universo Paralelo tão estranho quanto o de Kafka.
Quem sabe este relato não possa referenciar outros caminheiros que, tentando percorrer os mesmos caminhos, se poupem das armadilhas com que me deparei nesta empreitada pôr não dispor de um mapa seguro.
Lá estava ela, uma cela perdida no nada. Olhando através da grade da estreita janela, observei um personagem degenerado, sujo, cabelos desgrenhados.
Amarrado em grossas correntes tenta desesperadamente se livrar delas. Seu olhar, mais do que de um animal selvagem, se aproxima do de um demônio das trevas. Dá a nítida impressão de um reservatório de energia subatômica preste a explodir.
A impressão é tão assustadora que qualquer aproximação é bloqueada pelo medo.
Quem será este ser repugnante, ao mesmo tempo tão forte e descontrolado, a ponto de merecer tal prisão?
O mais estranho é que o material que reveste a cadeia parece emanado do seu próprio prisioneiro, qual teia que aprisionasse sua aranha.
Aquele embate que se trava entre o prisioneiro e sua cela numa Zona fantasma qualquer produz fagulhas e estilhaços que atravessam a barreira entre dois mundos.
Este fenômeno provoca um desequilíbrio no Universo, uma partícula afetando o Todo Universal, que entra e permanece em colapso constante. É o caos em equilíbrio.
Em um planeta distante brilhos fugazes são disparados através de uma abobada transparente e azulada que protege a sala de controle de "Centra". Aquelas emissões nada mais são que raios de altíssima freqüência, carregados de informações codificadas , que interferem continuamente no caos, mantendo seus equilíbrio dinâmico.
Daquele ponto da galáxia o agente espacial Zuriack se prepara para a passagem : "Zuriack, se apresente imediatamente", soa a voz trovejante de Trino, o comandante de Centra.
Um personagem estranho entra em cena. Se veste com uma espécie de armadura prateada e colante e um capacete hermético.
O agente Zuriack sai de um compartimento contíguo à sala de controle, caminha à passos firmes para a cabina de passagem "espirotronica ", se instala calmamente na cabina, desaparecendo num brilho intenso e fugaz.
Leandro caminha lentamente através da ponte, rumo à cidade escura. Sua sombra se projeta como um espectro no asfalto molhado.
Águas turvas passam pôr baixo da ponte, carregadas de detritos. Leandro toma consciência ali de sua memória que o persegue com sua própria carga de dejetos acumulados.
Tentando afastar pensamentos sombrios passa a mão pela testa molhada de chuva e suor. Olha a paisagem à sua volta, tenso, instinto aguçado, nervos à flor da pele. Seu olhar expressa angústia e medo. Dúvidas e mais duvidas varrem continuamente seu cérebro febril.
Perguntas se sucedem e se acumulam. Leandro é a imagem do espirito humano envolvido em uma crise existencial constante e sem limites.
Este é o seu destino , uma busca sem fim.

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Aleluia Dos Montes

Aleluia dos Montes é um pequeno povoado perdido no grande sertão das Gerais. Seus
habitantes, gente de natureza humilde e simplória, vivem suas vidinhas rotineiras, alheios
às crises do neo-liberalismo e da globalização.
Naquele domingo ensolarado um movimento ncomum se formava na pracinha central, em
frente à Igreja. Um pequeno grupo de moradores vinha se concentrando prá ouvir os relatos
de Tunico e Zezé, os dois aventureiros da aldeia que acabavam de chegar da cidade grande.
Jovens caipiras de poucas letras e compreensão lenta, tinham uma maneira própria de
perceber os fatos e os acontecimentos. Eles haviam pescado de viés algumas noticias
nos jornais da "capitar" e agora traziam suas próprias interpretações para o grupo de
atentos moradores da aldeia. Dizia Tunico:
- Lá na capitar só se fala num tal de Apagão que vai chegar, é Apagão prá cá, Apagão prá lá.
- É mesmo, (emendava Zezé) , este Apagão deve ser algum artista da "Grobo", o cara é
famoso como quê.
Tunico discordou do Zezé:
-Prá mim deve ser cantor de "funqui" que não para de tocar nas rádios da "capitar".
As meninas da aldeia se assanhavam todas:
-Mas este Apagão vem aqui em Aleluia tambem?
-Claro, diz que vai chegar em todo lugar.
-Quê dia, quê dia?
-Tá marcado prá chegar no dia primeiro de junho.
O prefeito Saldanha que se mantinha ali perto, de ouvidos ligados naquele papo se pronunciou:
-Gente, se este artista ou funqueiro vem aqui precisamos nos preparar porque Aleluia dos
Montes vai aparecer na televisão.
A aldeia começou a se agitar, ganhou vida nova. Uma comissão de recepção foi formada,
comandada pela primeira dama e composta pelas maiores beldades do lugar.
A banda de musica do sô Lau foi convocada urgentemente. sô Lau ainda tentou se esquivar
dizendo que não tocavam há anos. O prefeito determinou que eles começassem a treinar
imediatamente, não havia tempo a perder
Alguém lembrou ao prefeito que era preciso se fazer algumas compras em Serra Verde, a
maior cidade daquele vale, balões, foguetes, bandeirinhas, apitos, etc.
O prefeito pensou que o investimento ia ficar caro, precisava conferir a verba disponível
na prefeitura para gastos com turismo e lazer, mas ele não ia deixar passar esta oportunidade
de jeito nenhum. "Afinal ano que vem tinha eleição".
Aleluia dos Montes deixaria de ser um nada perdido nos sertões para se tornar em um ponto
no mapa da região.
As madames da aldeia fizeram um mutirão para confeccionar belos vestidos ( bregas e
chiques), com os recortes mais coloridos do empório.
Sô Nego, o autor da aldeia compôs um jingle que passou a ser decorado por todos.
- "O Apagão vem aí parapararara... , o Apagão vai chegar, paraparararara...
Dona Noca teve a idéia de montar uma quermesse com tendas de canjica, pipoca, quentão,
caldo etc. Na certa com o Apagão viria muita gente.
O prefeito aprovou a idéia e tome mais verba. A prefeitura já estava endividada por duas
gestões. Como o evento estava previsto para a noite o prefeito Saldanha mandou vir de Serra
Verde uns possantes holofotes para iluminar a pracinha.
Chegou finalmente o grande dia, a aldeia estava uma beleza. Dava gosto ver aquela praça
toda iluminada e enfeitada com balões, bandeirinhas.
A hora se aproximava, toda a aldeia ali presente no maior suspense. O relógio da Igreja já
começava a bater as vinte badaladas.
De repente todas as luzes se apagaram, a aldeia ficou no maior breu. Alguém gritou no escuro:
-"Acendam a luz, assim não vai dar prá ver o Apagão".
O prefeito furioso, tanto trabalho prá nada: - "Isto é sabotagem da oposição".
Duas horas depois as luzes voltaram e Dona Laura diz consternada:
-"Ë muito azar, o Apagão passou e ninguém viu ele"
E todos voltaram para casa frustrados e praguejando contra aquela conspiração do destino.

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A JORNADA DE ÁQUILA

Sobrevoando por entre as nuvens, em direção ao sol nascente, olhar penetrante, golpes fortes e largos de asas, intercalados com vôos planares, assim segue Áquila em sua jornada matinal.
A portentosa águia avança entre trilhas invisíveis por sobre picos e montanhas, pilares do teto azul anil que lhe serve de habitat e campo de caça.
Lá embaixo, vales, canynons, rios e florestas, rendem as homenagens que são devidas a rainha do espaço.
Solitária, absoluta, dona do mundo que se ergue entre o céu e a terra , seu olhar ultra sensível esquadrinha os planos diminutos que se situam lá embaixo ao seu domínio.
Olhar agudo, penetrante, controla cada ponto em movimento que ousa desafia-la em seu patamar imperial e se arrisca em corridas infrutíferas por entre as trilhas e veredas do Mundo de Lilliput.
A juíza marcial avalia rapidamente a ré, faz seu julgamento, emite sua sentença e desfere o golpe fatal do verdugo dos ares.
Suas asas se inclinam para baixo e seu corpo dourado, contra a luz do sol, arremete como um missel teleguiado, prestes a cumprir seu jugo. A presa não tem nenhuma chance contra tamanho poder, que onipresente e onisciente faz cumprir as escrituras dos ares e dos altos picos onde, ela , Áquila, reina totalitária .
Planando nas alturas, por entre nuvens sombrias, a águia, avalia sua ultima estocada. Porque falhara? Seu bico curvo em demasia, suas garras deformadas, suas penas envelhecidas haviam contribuído para um complô de sua própria natureza.
Sua caça escapara, tripudiando da lei. Ali naquelas alturas, uma nova constituição estava sendo escrita pelo seu espirito rebelde e independente e uma vez transitada em julgado, era preciso fazer valer a nova letra, dura, implacável, tirânica.
Áquila sobrevoa seu império como se fosse pela ultima vez . Não se vê em seu olhar nenhum sinal de auto piedade ou temor. Escolhe dentre as montanhas, a mais alta e lá em seu ninho de morte sofre a solidão de seu martírio.
Bate seu bico contra a rocha num auto flagelo indescritível, sua decisão de vida e morte ganha contornos dramáticos. Seu bico velho e curvo se desprende e como numa dor de parto, Äquila vê um novo bico nascer, como um instrumento de poder renovado.
Usando o novo bico como um alicate de corte, arranca uma a uma suas garras disformes. Novas e afiadas garras aparecem, seu segundo instrumento de poder já está em pleno uso. Com estas novas garras, e com seu novo bico, Áquila arranca suas penas velhas e inflexíveis e como que por encanto uma nova plumagem aparece como seu manto real. Sete meses se passaram em que as altas montanhas viram pousar em seu cume uma águia envelhecida, rainha deposta, pronta para morrer
Heis que se ergue do trono, renovada, renascida, a rainha Áquila , pronta para restabelecer a ordem nos seus antigos domínios. Os vales, os canyons, as florestas e rios tremem ante a chegada do poder total. Após aquele dia veriam, por mais trinta anos, o espirito da natureza, controlar cada quadrante do reino , com seu olhar penetrante, seus vôos de alto plano, seus arremessos fatais.
E saberiam que enquanto Áquila ali estivesse, em sua vigilância onipresente, a ordem daquele mundo estaria garantida.
Áquila representa o sentido de renovação da vida, a revolução em pleno curso e vôo, o instinto de sobrevida que serve aos vencedores.
Áquila é o espirito de liberdade que apesar de todas as duvidas e incertezas, toda a descrença e desanimo, toda a violência e desamor continua prevalecendo além das nuvens e da montanhas, em sua mancha constante rumo ao sol nascente. Este é o Caminho da Águia.

1.10.05

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Planetópolis era uma cidade-modelo que surgiu do nada em alguma região inóspita do globo, com o único objetivo de servir de referencia para nossas urbes imersas no caos e na violência.
Caminhando pelas suas largas e arborizadas avenidas o viajante curioso se deparava com uma colossal biblioteca e um completo museu que juntos, ofereciam dados e informações relevantes que foram extraídas de todas as iniciativas bem sucedidas da raça humana e de raças alienígenas na construção de suas cidades.
Todos os projetos estavam ali sintetizados em arquivos de domínio publico, para consultas amplas e abertas, em registros que balizaram a construção de Planetópolis.
Na lei orgânica do município havia algumas regras interessantes. Uma delas determinava que a escolha do prefeito e dos vereadores seria feita em voto individual e secreto, sendo habilitados cidadãos de notória idoneidade e com pré-qualificação para os cargos.
Devido à alta responsabilidade das funções, cujas ações e decisões afetariam diretamente a vida da população estes cargos seriam não remunerados recebendo seus detentores o suficiente para seu custeio pessoal.
Os secretários de governo seriam escolhidos, de uma lista tríplice apresentada pelo prefeito, em voto aberto e justificado, no plenário da Câmara, pelos representantes do povo, após a devida sabatina de qualificação técnico/administrativa.
Isto visava impedir que cargos relevantes para os interesses do município e remunerados com recursos públicos fossem usados de maneira vulgar e irresponsável pelo prefeito para se beneficiar parentes ou amigos.
Estes por outro lado, não estariam impedidos de competir por cargos e nem seriam prejudicados de forma preconceituosa, desde que se submetessem aos mesmos critérios comuns de contratação.
A contratação de secretários com objetivos escusos, como se calar a boca de vereadores, ou como moeda de barganha era, pelo texto da lei, considerado crime passível de destituição em definitivo do prefeito.
De outro lado, vereadores que recebessem propina para votar quaisquer matérias também seriam afastados imediatamente. O Superior Tribunal do Município seria o órgão encarregado de julgar estas questões, ou leva-las a plebiscito popular.
Rezava a lei que brechas, ou interpretações dúbias dos textos deveriam ser reguladas por regras de bom senso e ética. Se por exemplo, o município contasse com recursos em instituições bancárias e se a lei em vigor nada explicitasse em matéria de juros estes deveriam ser, por força da lei do bom senso e ética, automaticamente incorporado ao principal, pelo bem do interesse coletivo.
O uso destes juros em beneficio próprio seriam considerado crime gravíssimo, assim como comportamentos pessoais considerados socialmente indevidos e imorais, principalmente se vindo de autoridades que deveriam se primar pelo bom exemplo, para as novas gerações ainda em formação.
Em Planetópolis o uso sistemático de propaganda institucional para ações de mera obrigação (pagar salários, por exemplo), seria considerada ação abusiva e crime administrativo, implicando na perda de mandato do autor e dos representantes eleitos pelo povo que se omitissem na questão e se negassem à fiscalização devida. A Cidade-Modelo seguia em seu objetivo de irradiar para o mundo, as leis que a tornaram “O Farol a brilhar na escuridão”, contra este modelo falido e ultrapassado que vinha transformado nossas cidades em guetos sem lei e sem ordem. Terras de mandatários e executantes.

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Planetópolis surgiu do nada. Um dia, ao raiar do sol, lá estava ela no meio de uma planície qualquer encravada em algum ponto despovoado do globo terrestre. Planejada e construída por alguma magica desconhecida, com um único objetivo, funcionar como uma maquete em termos de habitat humano, como forma de redirecionar a civilização para um novo e inovador modelo de teia social.
Os modelos em vigor haviam se esgotado, não mais serviam para acolher e fazer prosperar a raça herdeira da Terra. A ordem, Crescei-vos e Multiplicai-vos”, fora esquecida e a violência imperava sobre as cidades e os campos.
O caos governava sobre a ordem, o ilícito ditava as regras e se impunha sobre as leis. Guerras, saques, drogas, corrupção, “um abismo leva a outro abismo”, e uma lei marcial vinda das trevas caia sobre a Terra como um manto negro. Planetópolis surgiu para funcionar como um sinaleiro em meio à tempestade.
Ao chegar à cidade um forasteiro desavisado se assombraria com suas largas e arborizadas avenidas, cuidadas com tal zelo que mais pareciam imensos jardins.
Já na entrada da cidade um grupo de funcionários públicos o acolheriam com boas vindas e o encaminhariam à seção de cadastros. Em Planetópolis era assim, qualquer cidadão, ao por os pés no município seria cadastrado e encaminhado para um período de adaptação e treinamento que o tornassem apto a ser um “novo cidadão”.
Suas qualidades, seus talentos, suas habilidades especiais, seus sonhos, anseios, necessidades, tudo seria registrado e passaria a servir como dado essencial para que os administradores planejassem a organização social da vida urbana. Em cada ponto da cidade se observava a marca da administração publica como um modelo de eficiência, honestidade e lisura no uso de recursos do município.
De espaço em espaço podia se observar orelhões como os conhecemos mas com uma importante inovação. Alem dos teclados normais existiam uns botões especiais que permitiam acesso a serviços básicos e essenciais da cidade, um botão requisitava o serviço de saúde, outro o serviço da companhia de eletricidade, outro ainda o serviço de água, e assim por diante. Em Planetópolis não existiam serviços de segurança que seria executada pelo proprio cidadão, cada um vigiaria a si proprio, numa demonstração de alta evolução cívica e de consciência política.
O município tinha como carro chefe da economia as culturas de plantas terapêuticas, as industrias de remédios naturais e o turismo de lazer e saúde. A cidade crescia e gerava empregos exportando para o mundo todos os produtos de sua rica flora medicinal e acolhendo excursões de turistas em busca de um ambiente de renovação e cura.
A distribuição de rendas era justa, evitando a formação das desigualdades tão comuns nas nossas cidades. Não haviam favelas, nem bolsões de miséria e os serviços básicos e essenciais retornavam como qualidade para o cidadão mediante o pagamento de um único imposto proporcional ao seu faturamento.